Comissão da Mulher de Macho

 

Depois que homens resolveram invadir os esportes, os banheiros e os presídios femininos, chegou a vez de invadir as comissões de mulheres. De acordo com o periódico¹ Mija em Ninja, a câmara de São Paulo conseguiu a façanha de montar uma Comissão da Mulher de Macho, inteiramente composta por parlamentares com penes. Afinal, assunto de mulher também é coisa de homem, o que prova que eles estão em perfeitas condições de desconstruir seu machismo e declarar com orgulho que vão assumir o papel de mulher da casa. Ui, que delícia!

O evento é uma grande conquista para a mulher, já que os indivíduos mais capacitados para garantir direitos de mulheres são homens, coisa que não é reconhecida por puro preconceito e desinformação. Para os desmemoriados, lembro que o privilégio de poder votar sem precisar servir ao Exército foi garantido por parlamentos 100% masculinos, fenômeno padrão ao redor do mundo. 

Adicionalmente, podemos mencionar que 100% dos direitos da mulher foram conquistados em parlamentos com maioria masculina. O desinteressado desejo de agir em prol da mulher é tão nobre que eles nem mesmo exigem reconhecimento por seus atos. Como bons cavalheiros que são, permanecem anônimos enquanto concedem o mérito das suas conquistas às mulheres. Tudo isso enquanto ouvem palavras de incentivo como opressor, escroto, machista, misógino, assediador, estuprador em potencial e outros apelidos carinhosos que as meninas usam para demonstrar seu agradecimento.

Caso ainda reste alguma dúvida da competência masculina nas questões de gênero, temos o projeto² de Lei n° 1372/23, de autoria do senador Maligno Malta, que revoga a Lei de Alienação Parental. A lei é a única coisa que impede mulheres alienadoras de agir impunemente, portanto é uma grande conquista da mulher na luta pela impunidade, digo, equidade de gênero. 

Essa Comissão da Mulher de Macho nos lembra por que homens não podem ser incluídos na Maria da Penha. Se as delegacias da mulher forem convertidas em delegacias de violência doméstica para atender também homens vítimas de violência doméstica, e outras toneladas de leis que garantem direitos somente a mulheres forem alteradas para também alcançar todos, todas e todes, a participação da mulher na política, que já é pequena, provavelmente vai diminuir.  

A dura e histórica verdade que não pode ser dita é que o interesse de mulheres pela política é, e sempre foi, menor que o de homens. Direitos da mulher é a isca que o poder público tem usado para tentar reverter a situação. Podemos observar essa dinâmica nas propagandas eleitorais, que convocam mulheres a participar da política com o argumento de que fazê-lo é defender seus direitos. 

Homens não ingressam na política para defender direitos de homens, já que suas prioridades são outras. Quando não estão fodendo o cidadão genérico estão fodendo homens para produzir privilégios para mulheres, pois essa é a arminha que eles apontam para a própria testa com fim de garantir o voto das meninas, que são mais da metade do eleitorado. 

Por toda a história da humanidade, mulheres sempre confiaram que homens vão foder com outros homens para garantir seus interesses, e esse voto de confiança é renovado de forma soberana pelo eleitorado feminino em todas as eleições. A relação das meninas com seus eleitos, no fim, sempre foi essa. Na fachada é só baixaria, mas nem vou contar o que rola nos bastidores das eleições para não levar zuck. Como dizia o velho deitado: um cavalheiro não tem memória.

O que falta na política para garantir representatividade de gênero não é comissão da mulher, mas sim comissão do homem, o único gênero que não tem voz nem lugar de fala no Congresso. Se você é mulher e pretende fazer carreira política defendendo direitos de homens no Parlamento, já tem meu voto. 

Comissão do Homem de Fêmea: apoie essa ideia.




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