Guerra de Facções

 


Cidadãos de bem e de mal estão em uníssono tendo gatinhos com a notícia¹ de que o PCC investe na preparação de candidatos de concursos públicos para infiltrar simpatizantes da facção no Judiciário e Ministério Público. O plano é ousado, mas será bastante difícil de implementar na prática, já que as instituições alvo do Comando se encontram no momento extensivamente infiltradas por outras facções que também se autointitulam ativistas da luta contra a opressão. Pior, o PCC, por ser organização privada, é vítima de concorrência desleal, visto que disputa vagas com outros ativistas que não só têm acesso a verba pública e privada para financiar suas atividades como contam com o apoio das instituições de ensino, poder Legislativo e Executivo, mídia mainstream e outras fontes institucionais e estruturais. Páreo duríssimo.  

Evidente que o indivíduo pode sempre argumentar que esse negócio de invasão em massa de ativistas nas instituições é teoria da infiltração, fantasias do calibre da Mamadeira de Piroca, Torres Gêmeas como serviço encomendado pela CIA, Grêmio tem mundial e outros delírios. Ceticismo sobre teorias da infiltração - assim como todo ceticismo sobre teorias suportadas por diz-que-diz-que anedótico e ausência generalizada de evidências -  é sempre saudável, mas deve ser diagnosticado como doença mental caso persista após a leitura do Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero² publicado pelo CNJ, que passa esse ano de diretrizes recomendadas para obrigatórias³ aos magistrados e magistradas. 

O documento é literalmente o Manual da Patrulheira das Galáxias, então trata-se de obra de grande utilidade para indivíduos interessados em entender o que é cultura woke, de onde ela vem, do que se alimenta e como ela afeta as instituições. A bibliografia citada no Protocolo é impecável, e temos pérolas como Toward a Feminist Theory of the State (Catharine Mackinnon), A intersecionalidade na Discriminação de Raça e Gênero (Kimberlé Crenshaw), Pensamento Feminista Negro (Patricia Hill Collins) e muitas outras de ativistas altamente graduadas e desconstruídas, nacionais e importadas. Menção honrosa para citação dos imorríveis clássicos Gender Trouble (Jú) e O Segundo Sexo (Mone).
 
O que obras suportadas em sua maioria por pseudociência, distorções da realidade passada e presente e outras panfletagens ideológicas estão fazendo como material de consulta de indivíduos que deveriam representar a elite intelectual da nação é um mistério muito fácil de resolver, portanto não vou nem tentar. O fato é que teorias da infiltração não são capazes de explicar um fenômeno dessa magnitude em sua totalidade, então essa é a hora de pensar fora da caixolinha. A natureza última do que está ocorrendo, penso eu, é mais intelectual do que ideológica. O que assistimos são na realidade os efeitos do colapso das instituições universitárias do primeiro mundo, que são hoje centros de imbecilização acadêmica empenhados em produzir e exportar pseudoconhecimento. O processo já foi totalmente implementado nas Ciências Sociais e está rapidamente se espalhando para outras áreas e países colonizados. 

Fraude intelectual, infelizmente temos que admitir, é mais barata e fácil de produzir do que pesquisa acadêmica de fato, algo que exige técnica, talento, método rigoroso e corpo docente capacitado. O retorno do investimento também é inferior, outro fator que desestimula a produção de conhecimento legítimo. Um pesquisador que detecte por meio pesquisa metodologicamente capaz quais são as causas da violência contra a mulher, por exemplo, não tem futuro na vida acadêmica. Já o  que descobre por meio de dados maquiados e fantasiados que a causa do fenômeno é a discriminação de gênero, misoginia, racismo ou assimetrias de poder vai receber verba para prosseguir com sua pseudopesquisa, vender pseudolivros que vão nortear políticas públicas, dar entrevista na TV, ser contratado como professor, consultor, analista, palestrante, aspone, ministro, etc. 

Judith Butler e Simone de Beauvoir são incompatíveis e irreconciliáveis. Por essa razão, citar as duas no mesmo documento como ocorreu no Manual da Patrulheira das Galáxias é passar atestado de indigência intelectual, e constitui prova de que o pessoal de Humanas é privilegiado, já que um médico que proferisse insanidade do mesmo padrão sobre assuntos da área médica teria seu registro cassado. Mone é uma pensadora existencialista binária que tentou em sua obra descrever o que é ser mulher na sociedade do ponto de vista histórico, econômico, cultural, social e bacanal. Jú, por sua vez, afirma que a categoria mulher não existe. O conceito não passa de ficção fabricada pelo patriarcado heterossexista com o objetivo de oprimir membros de categorias não existentes e arbitrariamente definidas. 

É um mistério como os patriarcas heterossexistas conseguiram identificar quem são as mulheres na população com fim de classificar aquele grupo arbitrário em uma definição arbitrária criada para atingir fins arbitrários, mas se a tese de Butler tem fundamento, o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero já nasce defunto por obsolescência ideológica. O documento, ao reconhecer mulher como categoria real com fim de orientar as decisões de magistrados e magistradas, e insistir no enfoque binário de gênero para pensar a realidade jurídica da sociedade nos deixa com um problema grave não endereçado: onde estão os magistrades nesse manual binário heterossexista de cisheteronormatividade patriarcal transfóbica? 

Melhor, como solucionar os insolúveis problemas que vão surgir da constatação de que opressor e oprimido não podem ser segregados por gênero para fins de distribuição de justiça social, já que gênero, além de ser fluido, é um espectro multicorzinhas com 50 tons de arco-íris? Não faço ideia. Pior, patrulheiros também não fazem, o que não é surpresa quando constamos que sua formação foi instruída por material fantasiado em centros de imbecilização acadêmica do primeiro mundo.

Que Frida nos proteja das infiltrações de facções mafiosas que sequestram as instituições públicas para instrumentalizar suas agendas privadas. Em nome da Deusa, da Filha e da Periquita Santa, hímen!


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