O Rockenrou

 


Há dez anos fiz uma foto para o dia das mulheres. A ideia era criar uma imagem por ano no dia delas, sempre tendo uma flor como motivo. Logo em seguida saiu nas redes sociais a campanha do não me dê flores, me dê respeito, então fui obrigado a abortar minha série Wonder Flower e pedir perdão a Frida por ter nascido com aquilo que balança. Ainda bem. Esse negócio de tirar foto de flor dá muito trabalho para o prazer que proporciona, então graças à Deusa é machismo, misoginia, racismo, homofobia, fascismo e atentado ao Estado Democrático de Direito.

Hoje, entretanto, não é dia das mulheres, mas das mães, portanto não preciso dar respeito a ninguém. Estou dispensado dessa obrigação não só porque não sou obrigado a nada, mas porque respeito para minha mãe eu sempre dei, até porque quando não dava, a chinela cantava. 

Por falar em cantava, Rita Lee decidiu¹ nesse 08 de maio de 2023 que não vai cantar mais. Lee, além de vó e rainha, foi também mãe do rock, então não creio que ela acreditasse que receber uma flor, especialmente hoje, é um ato de violência contra a mulher. A cantora nunca foi o que poderíamos entender como sovaco peludo, mas com certeza pintava o cabelo. 

Conforme a própria Lee explicou em entrevista² a Jô Soares, ela não tinha, nem queria ter, domínio técnico de algum instrumento. Como os machos Mutantes insistiam para que ela ficasse só no pandeiro, isso era o que ela entendia como machismo. Em outras palavras, quando seus colegas de banda não acham conveniente que você faça aquilo que você declaradamente não sabe nem tem o desejo de saber fazer, isso é um ato misógino de opressão patriarcal. Fás centido.

Depois de cheirar muita erva venenosa, os Mutantes fumaram uns cogumelos e alucinaram uma trip psicodélica de que deveriam investir na linha progressiva-virtuose. Viram gnomos, com certeza. Como Lee não era uma virtuose no instrumento, foi ejetada da banda em 1972, evento que ela visivelmente acreditou estar relacionado³ com o fato de ter nascido com uma vagina. Ninguém nunca conseguiu coisa alguma tocando no estilo sougressivo-virtudão no Brasil, então os Mutantes foram pro espaço enquanto a carreira solo da pepecuda oprimida decolava. O resto da história faz parte da história do rock brasileiro. 

Vejamos: acha que igualdade de gênero é machismo e pensa que o universo a persegue porque nasceu mulher. Essa incapacidade de entender o mundo ao seu redor poderia ter sido provocada por outras drogas, como pó, heroína, LSD, ou mesmo álcool, que ela enxugava em mamadeiras quantidades, mas o grau de paranoia e descolamento da realidade sugere que o deLeerio de Rita Lee Jones era feminismo mesmo. Que Frida a tenha.

Em memória de Lee e das mães que já se foram, devo dizer que não posso mais entregar flores à minha. Quando ela se foi dois anos atrás eu queria muito escrever algo para ela. Tinha que ser alguma coisa coisa bonita, mas também profunda e com significado. Infelizmente travei e não consegui. 

Assim como Rita, ela morreu de morte anunciada, script ensaiado inúmeras vezes que se encerrou em ato solene, embora familiar. Sei que um dos seus maiores medos era terminar sozinha, mas nos seus momentos finais tive a chance de mostrar que isso não ocorreu, pois os filhos estavam lá para olhar por ela. Sei que aquilo foi muito importante para ela, embora também tenha sido muito importante para mim. Agora só falta você, iê iê⁴... 

Se você ainda pode enviar flores à sua mãe, dê a ela de presente um sinal de que você está presente. Aproveite para fazer isso agora, pois no futuro é possível que o pessoal vá dizer que amar a pessoa que te trouxe ao mundo é transfobia. Afinal, você só ama sua mãe porque ela é mulher, já que se ela tivesse nascido homem seria o seu pai. 

Desejo a todes um bom domingo e um feliz dia das mães. 






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