Etimologia do Lacre

 

Lacração é gíria que uso por falta de alternativas, já que a palavra está tão deformada pelo uso corrente na cultura que já não significa coisa alguma. O vocábulo foi na realidade engolido pelo vórtice político-ideológico do tudismo cultural, e serve hoje, quando muito, para sinalizar conformidade tribal na polarizosfera. 

Em outras palavras, quando algo que o polarizominion não entende nem faz questão de entender se assemelha ainda que remotamente a algo que não deveria pertencer à sua bolha ideológica, aí é lacre. Não, não é, querido, já que tudo que eu não gosto é lacração é Tiburismo reverso, o outro lado da moeda da luta contra o turbotecnomachonazifascismo. Definitivamente não é minha intenção ao usar essa ou qualquer outra palavra, já que meu objetivo último ao apontar, criticar ou zoar alguma coisa é, e sempre foi, o de escurecer, jamais esclarecer. Lacrei? 

Pensando no dilema do arrombamento semântico desse colóquio, ou por que não dizer, colácrio, resolvi fazer um breve estudo etimológico da expressão e confirmei o que já sabia. Tudo no universo nasce puro, inocente e em estado não deflorado, mas a polarizosfera, assim como o pop, não poupa ninguém. O lacre não é exceção, e na sua virginal e imaculada origem não tinha conotações político-ideológicas. Significava¹ apenas se sair bem em algo, arrebentar, mitar, etc. Recordo perfeitamente ter usado lacre com esse sentido no passado por muitos anos, o que curiosamente ocorreu antes da era da lacração. 

Por falar em lacre, lacrou o quê, mana? De acordo com a travesti e humorista Romagaga, lacrou o cool dazinimiga, querida. O termo lacre foi lacrapultado da comunidade gay para o estrelato em mítico video² de 2013, em que Romagaga descreve o que ocorreu com o esfíncter das concorrentes de Beyoncé por ocasião do lançamento de seu novo e divino álbum. A performance viralizou, memetizou, e o resto do lacre é história.

De acordo com o entendimento arrombado atual, lacração faz referência, entre outras infinitas referências, a qualquer coisa relacionada ao universo LGTVQ+. Como lacre é uma produção de não normativos, dizer que algo lacrou, quem diria, é lacração. No mínimo irônico, mas também pode ser entendido como uma forma de usar o sistema contra o próprio sistema, que nada mais é do que a velha tática de usar o cool para dar surra em pinto.

Parabéns, mana! Lacrou, mas lacrou errado. O objetivo original do lacre é selar o dos outros, não o seu, mas enfim, cool é cool. Cada um cuida do seu.


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