Pink, Freire & Floyd

 


Óbvio Karnal andou esses dias pedindo para ler ao menos dois livros do Paulo Freire antes de abrir a boca, pois críticos e tietes de Freire nunca o leram. Errado não está, mas certo muito menos. Esse careca dá várias dentro, mas volta e meia dá na trave. Isso é normal. Quem nunca deu com o careca na trave, que atire o primeiro cabelo.

Não existe isso de isso de ler pensador importante no original. Você entende do assunto que o autor abordou? Sabe quais obras dele são relevantes? Entende o contexto histórico, filosófico e cultural que o levou a escrever o que é relevante? Entende as ideias passadas que o influenciaram? Não? Então você entende o quê, criatura de Frida? Ler o autor no original só irá lesionar seu cerebrinho, e você vai sair por aí feito zumbi falando bobagens do tipo "você leu os livros do Fulano?". Não pague esse mico jamais. É só ler uns artigos de alguém que leu Fulano e fez uma síntese do seu pensamento. Pronto, resolvido. Caso seja acometido por um desejo desesperado e inexplicável de ler Fulano, e esteja com tempo sobrando, aí você lê o Fulano. 

Antes de começar a falar asneiras sobre Fulano, não esqueça também de ler quem critica Fulano. Todo pensador importante tem críticos, então você pode inclusive ler direto a crítica, pois nesses artigos tem que haver um resumo do que é criticado, e aí você já mata dois Karnais com uma Freirada só. Pronto, resolvido outra vez. Não esquecer que a vida pessoal e pública do Fulano não é a sua obra, então não confunda as bundas. O que o Fulano fazia ou deixava de fazer com o popô, qual era sua tribo, o que costumava fazer durante os fins-de-semana, que cagadas aprontou durante a vida, para qual santo apagava vela, quais suas opiniões sobre o que não é relacionado à sua obra, nada disso é relevante para entender a obra de alguém.

À exceção de Hegel, um dos ETs infiltrados entre nós que a Rita Lee falou, todo pensador importante tem uma linha central, um cerne com as ideias relevantes que constituem o legado pelo qual se tornou conhecido. Aí é só consultar o Google. Segundo o Google, Freire não gosta de aluninhos passivos, ele preferia os ativos. Pronto, resolvido. Outra vez. Mas quem é o tal do oprimido que o Freire fala? Ora, o oprimido pelo coturno totalitário ditatorial da latino-américa: soy loco por ti America, soy loco por ti de amores. Eu já ouvi essa cachaça antes em algum lugar, mas onde?

We don't need no, edjuquêichon... chon, chon chon... Caldo de galinha é bom, mas o cultural é bem melhor. Another Brick in the Wall, hit imorrível do Pink Floyd, é uma critica ao totalitarismo pedagógico. E não, Roger Waters provavelmente não leu Freire também, mas os maluco beleza em Harvard da sua época que não conseguiram ganhar dinheiro tocando guitarra leram, pois Freire por lá é pop star das academia gringa. O fato é que se você nasceu durante ou depois da ditadura militar, você tem o cérebro formatado pelas ideias de Freire e o caldo acadêmico-cultural que ele ajudou a construir e nem sabe. Eu mesmo descobri isso semana passada. Nem sou ovo, mas fiquei chocado. Ninguém quer ser o Another Brick in the Wall, o robozinho incapaz de pensamento crítico que sai de uma linha de montagem na escola. Essa ideia cheirosinha não tem pólo político-ideológico, então pode ser adotada e adaptada por qualquer um e incorporada a qualquer discurso onde se faz necessário pensar o ensino. 

Pois então. Na imagem vemos mítica cena do clipe de Another Brick in the Wall. Na primeira fila temos robozinhos gringos de Harvard fãs de Freire, que saíram de uma linha de montagem Freiriana. Nenhum leu Freire, mas todos ouviam Pink Floyd. Atrás seus colegas, também robozinhos saídos de uma linha de montagem Freiriana, que não gostam de Freire e dizem que ele destruiu o ensino no Brasil. Nenhum leu Freire também, mas todos ouviam Pink Floyd. O que vem atrás é eco, eco, eco... Eu apareço nessa foto aí, mas é lá, bem lá no fundão, depois que a parede faz a curva. 

Sempre fui um cara do fundão, o único lugar seguro para existir livre de opressão em uma instituição de ensino. Na hora da prova é aquele desespero, então eu ia me movendo para a frente à medida que os exames se aproximavam, pois final de semestre é opressão pura. Enfim, acho que meu gênero na escola era fundão fluido não binário, e a única dúvida que me resta é por que as ideias de Freire conseguiram destruir o ensino no Brasil, enquanto as Harvard ficaram de pé. Milagre de Frida, só pode, mas hoje em dia estou com sérias dúvidas se milagre realmente ocorreu ou tudo é só marketing da indústria fonográfica.
 
O indivíduo que diz que você não sabe o que está falando pois não leu Fulano não sabe o que está falando, então peça para que ele explique de forma clara e resumida o que há de tão importante nesse Fulano. Oh, grande mestre Sabão: você que leu essa cachaça, elumine-me com sua vasta sabedoria sobre Fulano e cure minha sóbria ignorância. 

Como dizem alguns, a vida é muito curta para ler Hegel. Hegel é outro que mora em um canto escondido do seu cerebrinho, mas como você não sabe disso, e ele está lá parado quieto sem incomodar ninguém, então esqueça os livros do Freire, esqueça os artigos, esqueça o Google, esqueça o Karnal e ouça Pink Floyd no Spotify. Seja lá o que estiver ocorrendo de realmente relevante na galáxia, basta ler minha página e você estará a salvo da tempestade. Os links a seguir são para os dias de sol. Para mais infor³³3³³mações relevantes e importantes sobre Paulo Freire, consulte o Karnal. 

Pensamento de Paulo Freire:

Filosofia da Libertação (contexto histórico-filosófico em que o autor se insere):

Crítica:

Pink, Freire & Floyd - análise empoleirada do álbum:

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