Papinha é Tudo de Bom

 

Rita Lee pra mim é mãe. Ela e outros boomers são da turma de malucos beleza que esculpiram a cabeça da minha geração. Hoje a mamãe é vovó, e a vovó, tadinha, tá gagá. Lee começou carreira como chaveirinho dos Mutantes. Ninguém dava valor pra ela na banda, possivelmente porque na época ela fosse de fato um serzinho improvável. Mamãe era uma mulher de sorte, pois quando os Mutantes acabaram, não havia redes sociais. Se já existissem, mamãe talvez tivesse criado a página Rita Indelicada para fazer carreira postando memes de macho que não acha o clitóris, reclamando de masculinidade frágil, dizendo que o patriarcado é opressor e que ninguém dá valor a mulheres porque elas são mulheres.

Ninguém nunca disse para a mamãe que o the future is female, ela também não sabia ficar de mimimi, então a única alternativa que lhe restou foi enfiar o violão no saco, cair na estrada e virar rainha do rock brazuca, quarto lugar em vendagem de discos no Brasil, atrás somente de Tonico & Tinoco, Roberto Carlos e Nelson Gonçalves. Tadinho dos machos mutantes. Acho que ficaram pra trás da chaveirinho por causa da masculinidade frágil. Mamãe nunca precisou pedir para ouvir os discos dela pois é dever moral do macho desconstruído consumir o que mulheres produzem, não precisou nem mesmo empinar a raba. De acordo com algumas Giovanas por aí, mamãe, a ovelha negra da família, violou as leis patriarcais da física. Mãe é mãe. Sei disso pois tive uma.

Embora nunca tenha usado a busanfa para empinar as vendas do seu vinil, mamãe defendeu o direito das mulheres de empinar a raba em qualquer lugar, até em comerciais de cerveja, pois impedir mulheres de empinar a raba na sua época era machismo. Hoje empinar a raba para a indústria da cerveja é machismo, embora não seja machismo empinar a raba para a indústria fonográfica ou quando você precisa convocar a boiada para o seu show de stand-up com piadas que deveriam ser de chorar de rir, mas o máximo que dá pra fazer é rir para não chorar.

Perto da mamãe, sou só o Menino Maluquinho do Ziraldo, mas garanto que tenho mais maluquice no currículo do que sonha sua vã filosofia. O problema é que eu sou só maluco, e por mais que me expliquem essas cervejas doidas de hoje em dia, não consigo entender essa cachaça. O mais doido é que essa cachaça da indústria cervejeira é light, praticamente zero álcool. Há toneladas de coisas muito piores que isso à venda por aí hoje.

Assim como eu, mamãe achava que hoje tudo seria como no desenho futurista dos Jetsons, mas ela pensa que tudo está igual aos Flintstones. Mamãe já é vovó, e a vovó, tadinha, tá gagá. Se estivéssemos como nos Flintstones, até que estaríamos bem, mas já cancelaram o Bambam porque esse menino promove modelos tóxicos de masculinidade, Fred e Wilma são muito cisheteronormativos, alguém inventou que yabba dabba doo é uma frase racista, e os doidos da cachaça só não encontraram transfobia nesse desenho ainda porque pararam de procurar.

Meu sonho de menino maluquinho era crescer e ser maluco como a mamãe, mas como já estou velho também, só o que me resta é sonhar que um dia poderei ficar gagá como ela. Minha esperança, inclusive, é de que eu já esteja gagá, pois se eu já estou gagá, então está zuzu bem. Tudo deve estar como eu assistia nos Jetsons, as cachaças que vejo são só delírios de uma mente senil, e eu na verdade estou tomando banho de sol enquanto alguém baila comigo como se baila na tribo, lá no meu esconderijo. Deve ser a enfermeira robô no asilo tentando me avisar que é hora da papinha. 

Adoro papinha, mamãe. Papinha na boquinha fazendo aviãozinho é tudo de bom. Eu sou do arco-íris, gosto de luz, então ser livre para poder comer papinha em paz sem ser cancelado com acusações de discurso de ódio e iogurtefobia é o que eu chamaria de privilégio. Depois de uma certa idade, não precisa muito mais que isso para ser feliz.

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