Eva viu a Uva

 

Conforme nos ensina Paulo Freire, patrono da educação brasileira, que estaria completando um século de idade este ano, não basta saber ler que "Eva viu a uva". É preciso compreender qual posição Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva, e quem lucra com esse trabalho. Eu, moléstia parte devo dizer, tive uma educação libertadora calcada no desenvolvimento do pensamento crítico em um colégio da elite econômica, que, embora não fosse público e gratuito, era de qualidade, além de não afastar-se em substância dos fundamentos da rede pública de ensino senão por disponibilidade de recursos docentes e discentes. 

Quando entrei na universidade, agora sim pública, gratuita e de qualidade, foi a mesma coisa, só que turbo. Possivelmente nada dessa estrutura que tive a sorte de usufruir ainda existe, então os sonhos de educação libertadora de Freire foram transformados em pesadelo, ironicamente pela elite oligárquica dominante que adora citar seu nome para em seguida tolher liberdades, cancelar o pensamento crítico e transformar o debate público em monólogo privado com fim de garantir seus privilégios institucionais. Privilégio institucional, ironicamente também, é coisa que o pessoal da turma da educação deslibertadora adora mencionar. Essa é a mesma tática que gente que peida no elevador usa, mas há um probleminha: a flatulência acadêmica atual está sozinha no elevador intoxicando-se com os próprios ninjas silenciosos enquanto acusa alguém que não está ali de ter peidado, e ninguém disposto a apontar o quanto isso fede tem permissão de entrar no elevador sequer para cheirar, que dirá feder.

Pois então, gêintchy: Eva viu a uva, que era do Ivo, que viu a vulva da Eva, que ocupa um contexto social que precisa ser compreendido. Inicialmente temos que compreender quem trabalha para produzir a uva, que são os funcionários da vinícola do Ivo, na maioria homens, que laboram de sol a sol para ganhar um salário uva passa bem no dia do pagamento, pois nos restantes é penúria. Ivo está em melhor situação, mas além de arriscar seu capital, também trabalha de sol a sol gerenciando a vinícola para produzir a uva que garante, além do vinho, o pão da classe assalariada.

Quem lucra, então, com esse trabalho? Eva, que viu a uva, que era do Ivo, que viu a vulva da Eva. Depois que Ivo, auxiliado pelos homens da classe proletária, rabalhar duro e mostrar ser um empreendedor de sucesso, Eva, a única que não está proletarizando nem aburguesando coisa alguma nesse contexto social, vai resolver que está muito cansada dessa situação e dar um pé na bunda burguesa opressora do Ivo. Eva, que viu a uva, que era do Ivo, que agora não vai ver mais a vulva da Eva, fica com os filhos do Ivo, metade do patrimônio do Ivo, remuneração vitalícia para ex-viu uva, além de remuneração para cuidar dos filhos, que só são do Ivo no dia de depositar o benefício pacotinho, pois nos restantes são da Eva. Mas que uva Eva tem que entregar a Ivo em troca das obrigações vinícolas vitalícias contraídas por ele? Nenhuma, já que Ivo não tem vulva, portanto seu contexto social é outro. 

Eva, a ex-viu uva, tem agora mais tempo de sobra do que tinha antes para gastar o dinheiro de Ivo, então ela o usa para postar memes nas redes sociais com seu iPhone 13 de 10 mil reais, coisa que já fazia enquanto era adolescente, nos tempos em que quem bancava seu iPhone era o papai, o patriarca opressor. Homens, de acordo com Eva que viu a uva, são o sexo opressor, os mesmos homens que agora trabalham para ela de sol a sol por salário uva passa sem iPhone, o mesmo papai que pagou seus iPhones, o mesmo Ivo que continua garantindo que sua vinícola, cuja metade já não é mais sua, continue dando lucro para garantir a uva da Eva. Eva se entende o pólo oprimido da relação patriarcal, então não perde oportunidade para criticar a divisão sexual do trabalho e falar mal de um sistema que tecnicamente não mais existe há séculos a não ser parar garantir as suas uvas. Sim, o patriarcado tem que acabar, mas por que ele não acaba? Ora, porque Eva viu a uva, que era do Ivo, que viu a vulva da Eva, mas é preciso mais do que saber ler apenas. É preciso compreender não só quem lucra com a uva, mas quem, no seu contexto social, lucra com a uva apenas por ter vulva.

Lembre-se sempre, amiguinhe: quem produziu as teorias de que homens são o sexo opressor foram as Evas, as burguesas desocupadas que, por não terem nada melhor para fazer além de ver a uva dos Ivos, reuniam-se no elevador para cheirar os próprios odores enquanto sapateavam em cima da invisível plebe masculina proletária que colhia as uvas que elas enxergavam. Para entender que tintura para cabelo as Evas misturaram nas suas garrafas rosinha com fim de empurrar seu suco de uva passado como merlot envelhecido em carvalho francês, é claro, é preciso uma educação libertadora que fermente o pensamento crítico. Conhecimentos sobre terroir, uvas e vulvas são também recomendáveis.

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