Vem Ka

 

Testemunhei vários animais digitais emergirem online desde que a Internet surgiu, mas justo agora que eu imaginava que nada de novo poderia surgir, estou testemunhnando o surgimento do troll Kafka, a coisa mais surreal que já vi dentro e fora da Intenet ou da qual tenha conhecimento em qualquer ponto da história, uma entidade cuja existência só era concebível em livros de ficção. 

Você pergunta ao troll Kafka o que é que você falou que não é um fato e ele se recusa a respoder. Em seguida ele entra em um frenesi kafkiano de acusá-lo de machismo, sexismo, nazismo, fascismo ou não sei o que ismo, mas vai se negar na sequência a dizer o que é que você disse que é alguma dessas coisas, e acusá-lo de estar em uma bolha. Mas em que bolha eu estou? Qual é a verdade verdadeira que eu preciso saber para enxergar fora da minha bolha? O troll Kafka vai se negar a responder, e vai continuar com acusações de ismos que são fundamentadas em algo que eu disse que eu não sei o que é, pois ele se nega a informar. 

Não é difícil entender como esses monstrinhos foram paridos. Estamos já há tanto tempo martelando em todo lugar que tudo é machismo, tudo é racismo, tudo é homofobia, tudo é fascismo, tudo é ciência malvada do colonizador eurocêntrico branco que o troll Kafka já não tem parâmetros para identificar o que não é essas coisas, pois por definição ele nunca as viu. Fatos científicos são todos forjados para privilegiar o homem cis hetero branco, então por favor forneça um fato científico não forjado para sustentar a afirmação. O troll Kafka não tem como fornecer isso. Não só não sabe identificar qual é a acusação, como não existe nem mesmo em princípio evidência possível que a suporte, pois toda a evidência disponível por definição é forjada para ser um instrumento da cisheteronormatividade de matriz eurocêntrica.

Notícias ou dados estatísticos também não podem ser utilizados pelo troll Kafka, pois tudo é forjado pelos ismos estrurais para beneficiar os ismos estruturais, então o troll não está em posição de aceitar dados e notícias nem de outros trolls Kafka, pois tudo está contaminado em algum ponto por discursos cisheteronormativos eurocêntricos opressores e garantidores de privilégios escusos de classe. Mesmo que ele tivesse uma fonte confiável, isso seria inútil, pois o troll Kafka nem identificou a acusação ainda. Não há como fazê-lo, pois ele já não sabe a diferença entre fato e fantasia, maligno e benigno, falso e verdadeiro. 

O troll Kafka vive em estado de permanente insanidade, já que perdeu qualquer referencial real, arbitrário ou imaginário que o ajude a reconhecer a diferença entre uma parafuso e uma torradeira elétrica, uma abóbora e uma furadeira, um dente e um dentrifício ou um pênis e um orifício. Quando tudo é tudo, nada é nada, nada é tudo, ou qualquer outra variação possível que você quiser, pois não faz diferença. O troll Kafka não saberia  apontá-la nem que a vida dele dependesse disso.

Isso é um passo além do mundo pós-verdade, é um mundo livre de verdade, livre mesmo das verdades fabricadas, pois se o indivíduo está convencido de que não existe diferença entre uma afirmação falsa e uma verdadeira torna-se irrelevante até mesmo entender o que está sendo afirmado. Quando não há o que entender, só o processo importa. O processo anda, mas para onde? Irrelevante. Nem isso é possível saber, pois não há informação alguma no processo além do fato de que existe um processo. 

O 1984 de Orwell já chegou e está indo embora. Nunca pensei que iria deixar saudades. No fim, resta o consolo de saber que não há nada que seja surreal que não possa ficar mais surreal. A delícia é que os trolls Kafka já estão se instalando na cúpula do cyberkafkianismo. Sua identidade digital foi apagada, mas o que você fez? Qual é o crime? Qual a acusação? Ninguém sabe. A culpa não é nem mesmo do sistema, já que mesmo que o sistema estivesse interessado em descobrir, não há por definição maneira possível de fazer isso, então vem ká. Vem Kafka comigo. Pós-moderno, pós-verdade, pós-Orwell, pós-Kafka, pós-tudo e pós-nada.

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