Oscar so White 2021

 

O Oscar de 2021 teve a menor audiência da história¹ desde que os números começaram a ser apurados, então até quando a indústria vai financiar classismo identitário em pleno conhecimento de que essa bandeira fabrica prejuízos é um mistério. Nesse quadro de histeria pandêmica, em que a edição mais Woke da história foi boicotada² até por classistas identitários sob o argumento de que faltou diversidade, cabe refletir sobre a diferença entre identitarismo e diversidade, além de denunciar algumas narrativas fake que a comunidade Woke hollywoodiana vende. 

Na foto vemos o que nos empurram hoje como evidência de que diversidade já era bandeira no cinema na década de 1960. Com três temporadas, o último episódio de Star Trek foi gravado em 1969, antes de eu nascer. Diversidade não poderia ser bandeira da época pois o assunto do momento era outro: segregação racial. O Apartheid nos EUA acabou efetivamente em 1967, então diversidade era um não conceito em um mundo onde negros recém haviam conquistado o direito de sentar nos mesmos bancos dos brancos nos ônibus, frequentar os mesmos lugares e ter acesso às mesmas instituições de ensino. Política de cotas nas universidades foi surgir bem depois para resolver um problema imprevisto que nunca tivemos aqui. A segregação era agora ilegal, mas isso não surtia efeito pois o ingresso nas universidades não se dava por vestibular, e sim por processo seletivo que envolvia entrevista, onde negros eram sumariamente dispensados, independente do brilhantismo do seu histórico escolar. 

Eu era criança quando via Star Trek na TV, mas se você dissesse para mim na época que está vendo nessa foto uma negra, um amarelo e um Vulcano que representa diversidade, eu iria olhar para a sua cara e pensar que você é racista e xenófobo. Eu nunca ouvi a palavra diversidade na época, e quando comecei a ouvir ela significava ausência de preconceito, garantia de que o acesso à qualquer posição estaria livre de barreiras discriminatórias de qualquer tipo, e não distribuição per capita de identidades.  

Não, não era "diversidade" que eu via em Star Trek, ao menos não no sentido racial e identitário que existe hoje. O que eu via ali era um engenheiro irlandês, possivelmente simbolizando a conexão com o velho mundo britânico, que foi aliado dos EUA na recente segunda guerra. Checkov, um russo, está no time por razões diplomáticas incrivelmente óbvias e de extrema relevância. A época era de guerra fria, então a tensão política mais importante do momento era uma possível terceira guerra nuclear causada pela corrida armamentista russa e americana.

Spock era um Vulcano. Ele tem que estar ali pois essa é uma história sobre uma federação de planetas. A teoria da conspiração da época é que Spock era um plano maligno do cinema para fazer propaganda satanista, já que ele parecia o capeta com suas orelhas pontudas. Do ponto de vista de uma federação de planetas, Star Trek é paupérrima em diversidade, já que a maioria esmagadora da tripulação não é alienígena. Alien em inglês também significa estrangeiro, então posso perfeitamente enxergar uma mensagem subliminar de imperialismo americano nessa imagem travestida de supremacia terráquea, até porque a tal federação tem base terráquea anglo-saxônica e o capitão é o típico cowboy yankee fazendo propaganda do American way.

Sulo é nitidamente um japa que está ali para curar as feridas das bombas de Hiroshima e Nagasaki e solidificar as relações diplomáticas e comerciais do Japão com os EUA. Diversidade de gênero no time de frente não temos, embora ela existisse em outros personagens da série. Poderíamos entender Uhura como uma telefonista de luxo cuja missão principal é desfilar de nanominissaia, exibir os peitões e fornecer tensão romântica ocasional à trama. Qualquer pirralho na época perdendo tempo notando que Uhura era uma mulher negra ao invés de ter fantasias eróticas com a oficial de comunicações, com certeza seria rotulado como um racista doente e pervertido. Há outras leituras que podemos fazer sobre Star Trek original, uma legítima série boomer da época de ouro do American dream, quando os EUA vendia o marketing de ser a terra das oportunidades. The home of the brave, the land of the free. Não importa quem você é ou de onde veio, se você for competente e trabalhar duro, vai ter sucesso e morder um pedaço do American Trek.

Independente da metanarrativa de sua preferência, o fato é que a indústria do cinema, assim como toda indústria da arte, sempre foi progressista liberal. Há uma correlação já medida em estudos entre inclinação para carreira artística e outras áreas que demandam criatividade com pensamento progressista. Engajamento político também sempre foi moda nesse meio: paz mundial, meio ambiente, imperialismo e intervencionismo americano, fome na África, liberdade sexual, questões raciais, guerra fria, muro de Berlim, etc. Política sempre esteve presente no cinema e nas falas das celebridades do Oscar. 

O problema é que não há nada de progressista no classismo identitário, já que ele é a antítese dos valores humanistas liberais que herdamos do Iluminismo europeu que produziram o Ocidente plural e diverso que temos hoje. Classismo identitário é a corroboração da teoria da ferradura: nos extremos dos pólos políticos, todos são tribais, tiranos e totalitários.


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