Grease - Nos Tempos da Brilhantina

 

Canceladores estão pedindo ao Netflix¹ o cancelamento do musical Grease, supostamente sexista e misógino. É uma aventura colegial teen ambientada em 1958, época da juventude de meus pais, e a história gira, obviamente, em torno da cultura e da moral sexual daquele tempo. O filme, entretanto, é de 1978, período em que Travolta era thin e rebolava o popô em ritmo de embalos de sábado a noite com lendária maestria. A película está bem surrada, mas definitivamente é um cult. Com custo de 6 milhões, arrecadou 396 milhões de dólares, e até hoje é o musical de maior bilheteria nos EUA. 

Não foi removido da grade do Netflix ainda, então é possível que esse mimimi cancelador seja somente uma jogada de marketing para tirar a poeira das velharias em estoque. Funcionou comigo, ao menos, já que tive que assistir outra vez essa encrenca para ver onde está o sexismo e misoginia. Grease é uma pérola da arqueologia empoleirada, bastante útil para observar como eram as relações de gênero nos tempos da brilhantina, em pleno alvorecer do woman power, energizado pela segunda onda do movimento mulherista. O pivô do lacre cancelador fica por conta de uma cena onde um personagem se abaixa para olhar furtivamente por baixo da saia de algumas meninas na arquibancada da área de esportes da Rydell High School. Seria coisa hoje para um metoo histérico, mas no filme podemos observar como os Fenícios lidavam com esse tipo de situação extremamente perigosa e traumatizante. 

As meninas levantam irritadas e saem do local quando descobrem que estão sendo observadas pelo tarado, enquanto outros meninos dão risada e chamam o sujeito de pervertido. Mesmo para a conservadora e puritana década de 50 americana, aquilo era uma bola na trave sem muita relevância, falta menos grave do que Jojo Todynho metendo a mão nas partes pudentas de um bofe azarado na Fazenda. Certo não está, mas também ninguém vai ter a vida cancelada por causa disso. Dá um pito, passa a régua e deixa assim. Tirando esse pequeno detalhe, o restante do caldo cultural é perturbador. Você acredita que naquela época os pirralhos passavam o tempo inteiro pensando em uma maneira de molhar o biscoito e as meninas tinham fixação em Chads com carro e grana para torrar com elas? Tal coisa é incompreensível para um millennial, que certamente nunca presenciou tal realidade.

Outras realidades alienígenas que os jovens de hoje jamais observaram também foram denunciadas pelos canceladores, que criticaram o comportamento das meninas. Elas se portavam como objetos sexuais para concorrer pela atenção dos bofes, o que é absolutamente incomum hoje. Há também uma estranhamente antiquada rivalidade entre elas, e a personagem Rizzo ridiculariza Sandy (Olivia Newton-John) por ser certinha demais. Rizzo é a arteira da turma, mas embora zombe da castidade da fêmea rival, passa o filme preocupada com a ideia de que suas artes podem deixá-la marcada como p00t@, portanto prejudicar seu nível de casabilidade.

Millenialls certamente nunca viram um mundo surreal desses, então recomendo Grease para pirralhos curiosos em saber como os meninos e meninas se comportavam no tempo dos seus avós. Abaixo segue vídeo onde John Travolta e Olivia Newton-John fazem um revival live do hit You're the One That I Want, que cantam no filme. O popô Travolta já não rebola como antigamente, mas a voz continua a mesma, ou seja, prejuízo duplo. Ao contrario de Olivia, que é uma cantora que atua, Travolta é só um ator que canta. Para os dinossauros que viram o filme na época que saiu, entretanto, nada apaga o encanto desse épico reencontro. Electrifying, indeed.  


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