Sobre Igualdade



Não há nada que é simples que não possa ser complicado, nada que é complexo que não possa ser simplificado, e não há nada que exista que não possa ser filosofado. Juro. Na matéria do blog Não Matou Hoje*, sobre processo por igualdade salarial de jogadoras de futebol nos EUA, foi utilizado o recurso retórico de criar um novo termo, igualdade-feminista, para escrever o artigo. A razão é evidente. Não é possível usar o termo igualdade e pretender ser entendido quando falamos de igualdade e feminismo, pois o conceito de igualdade que feministas usam é totalmente diferente do que entendemos normalmente por igualdade. Me ocorreu então que o problema é mais complexo, já que, de fato, existem muitos tipos de igualdade.

Igualdade, um valor derivado da justiça, foi teorizado como conceito, possivelmente pela primeira vez, durante o período Renascentista. Burgueses sentiam-se injustiçados com o fato de que um comerciante rico tinha menos status na sociedade que um duque empobrecido, então tiveram a ideia de terminar com sistema de castas, que separava as pessoas entre nobres e plebeus, para criar um mundo onde todos têm o mesmo status e as mesmas oportunidades, sem distinção por acidente de nascença. Claro que não há nada que é simples que não possa ser complicado, então complicou.

Em pouco tempo, situação financeira passou a ser a nova medida de status, além de ser um facilitador de oportunidades. Surgiu a ideia então da igualdade de resultados, onde um mundo justo significa garantir a todos os mesmos resultados, uma ideia que, perseguida às suas últimas consequências, nos levaria ao paraíso comunista, onde todos tem as mesmas oportunidades e obtém os mesmos resultados. Claro que não há nada que é simples que não possa ser complicado, então complicou.

Observamos então que a ideia de busca por igualdade era mais complexa do que pensávamos, pois na realidade não somos iguais. Derivamos então da igualdade um novo conceito, o da equidade, que é uma igualdade ajustada para reconhecer e compensar nossas diferenças. Claro que não há nada que é simples que não possa ser complicado, então complicou.

Feministas gostaram dessa coisa de reconhecer as diferenças, então resolveram que igualdade deveria reconhecer as diferenças entre os gêneros, mas com adaptações. Quando é vantajoso para mulheres reconhecer as diferenças entre gêneros, então você as reconhece, caso contrário, não. Claro que não há nada que é simples que não possa ser complicado, então complicou.

Em seguida veio a teoria dos Muitos Feminismos, onde nenhuma das teorias feministas possui enunciados com validade universal, e várias desigualdades simultâneas foram produzidas. Para Radfems, pornografia faz do mundo um lugar desigual, pois explora mulheres, já para Feministas Liberais, proibir pornografia faz do mundo um lugar desigual, pois mulheres não têm liberdade para fazer o que bem entendem com o próprio corpo. Se você não se perdeu todo até agora e não saiu zunindo a 300km/h na curva Tamburello, esse é o seu momento. O que temos aqui é uma mistura braba entre igualdade de oportunidade e resultado, tudo calibrado pelo que é conveniente para mulheres, mas com conveniência personalizada para cada grupo delas. É um conceito feminista definitivo de igualdade, o da igualdade quântica, onde todos os estados possíveis de igualdade e desigualdade ocorrem separados e ao mesmo tempo.

Claro que não há nada que zuretou de vez que não possa ser simplificado, então você pode encontrar ao final da matéria do blog Não Matou Hoje, linkada abaixo, uma definição de igualdade feminista que é tão simples, prática e descomplicada, que até eu, que sou homem, consegui entender. No frigir dos bagos, independente de qual definição de igualdade feminista você escolher, o resultado final é inexoravelmente o mesmo: mulheres são vítimas e o patriarcado é opressor.

Como prometi, o que era simples, compliquei, o que era complicado, simplifiquei, e sobre as igualdades que existem, filosofei. Sempre cumpro minhas promessas. Juro!

(*) https://naomatouhoje.blog/2020/05/02/jogadoras-de-futebol-do-eua-perdem-processo-por-igualdade-feminista-salarial/

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