Love is a Force of Nature



Tenho reservas quanto a extrair prazer da desgraça alheia, mas ver o fracasso retumbante do último filme da franquia do Exterminador do Futuro, que farei questão de não ver, produziu em mim um misto de alívio e alegria. Sinto pena apenas por Schwarzenegger e Linda Hamilton, que emprestaram seus nomes para esse fiasco.  Sarah Connor faz parte integrante da história da minha juventude, mas recentemente a mídia está tentando me convencer que não posso ter total adoração por essa personagem pois sou um macho tóxico que tem problemas com protagonistas femininas fortes. Querem me convencer que vou ficar muito assustado com esse último filme pois sou um misógino enrustido medroso. Nem vou perder tempo dizendo que não sou misógino, já que isso equivale à confissão. Dizer que não é misógino é a primeira coisa que um misógino enrustido vai fazer.

Possivelmente a estratégia de marketing mais imbecil imaginável para promover um produto é dizer a um potencial cliente que ele contém falhas morais que o impedem de gostar do produto. O vendedor também diz que não faz questão que você compre pois o produto não foi feito para você. Não esquecer também que, mesmo após ter sido alvo desse competente charme de vendedor, se você não consumir o produto e gostar dele, você deverá se sentir culpado. Aconteça o que acontecer, pode se preparar para ser linchado pelos pelos minions do vendedor, que estão mais interessados em infernizá-lo usando o produto como desculpa do que no produto propriamente dito. Isso não é estratégia de marketing. É sabotagem. Espantosamente, esse tipo de coisa é padrâo no cinema hoje.

Brokeback Mountain, quando foi lançado, estava envolto em um evidente desconforto homofóbico em razão de ser uma história de amor gay com cenas bastante "calientes". O problema é que ninguém avisou que o filme foi feito para assustar homofóbicos. Ninguém se sentiu não convidado. Ninguém foi informado que deveria sentir culpa por não querer ver ou por ver e não gostar. Sucesso nas telonas. Quando chegou nas locadoras, os funcionários estavam todos com chapéu de cowboy gay e sorrisinho amarelo para fazer o marketing da fita. Sucesso também nas locadoras. 

O verdadeiro segredo de Brokeback Mountain é ter sido um filme de protagonismo compartilhado, o único protagonismo possível em qualquer narrativa. A jornada dos personagens é universal, já que um amor proibido, aquele que não pode ser exercido por alguma razão, estabelece pontos de contato com a narrativa pessoal de qualquer um. Empatia é o nome do fenômeno. Nenhuma narrativa pode funcionar sem empatia pois nenhum narrador vende a história dos outros. Ele nos vende a nossa. 

Hollywood, sob pretexto de criar narrativas inclusivas, está investindo progressivamente em histórias cada vez mais excludentes. É a direção oposta da coisa que nos mantém interessados em narrativas de qualquer tipo. A sociedade nunca viveu de protagonismos da forma como o protagonismo está sendo vendido hoje. Pelé era pobre e negro, mas quando chutava a gol, a elite racista brasileira chutava com ele. Pelé nunca expulsou a elite brasileira racista de campo. Nunca disse que seus gols não eram também deles. O que Hollywood não entendeu ainda é que isso não é cultural, portanto não pode ser mudado. Faz parte da engrenagem humana conectar-se uns aos outros por meio de narrativas comuns. Essa é a cola que mantém o tecido social unido e o permite sobreviver às intempéries de suas pressões internas.

Empatia é observável em primatas, todos animais sociais como nós. Não é uma modinha. Não é uma invenção de macacos modernos. É como a roda. Não pode ser reinventada. É a coisa mais redonda que podemos fazer. Não há margem para upgrades no design, embora com certeza possa ser piorado.

Love is a force of nature. 

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