As Fionas Modernas


Quando eu digo que homens e mulheres de antigamente se entendiam, tem uns pirralhos da geração Y e Z que não querem acreditar em mim. Ficam brabos, acham que eu estou gagá. Eles nasceram em um mundo que já não era o meu, então entendo eles. A tendência das mulheres da minha idade e mais velhas é me entender. Quando eu falo sobre como homens e mulheres são diferentes, a conexão é natural e automática. Ora, isso elas já sabiam. O que elas estavam esperando é alguém dizer isso pra elas, só pra confirmar que são normais. Fora de alguns ambientes acadêmicos de exceção, como Psicologia, Biologia e Medicina, dizer hoje que homens e mulheres não são iguais e possuem algumas diferenças inatas é o padrão de anormalidade em qualquer lugar. 

Mulheres da minha idade e as ainda vivas viveram todas sob o meme Beauvoiriano do não se nasce mulher, torna-se. É uma derivação de gênero da filosofia existencialista, que diz que humanos não possuem uma natureza, portanto o que somos é apenas subproduto da cultura. Esse meme é pseudocientífico. Não é exatamente inócuo, mas como mulheres variam em temperamento e habilidades, e a cultura modula nosso comportamento de qualquer maneira, então passa a régua e segue o baile. Essa informação incorreta não tinha muito efeito prático na vida das pessoas mesmo, e elas tinham mais o que fazer do que ficar pensando no assunto.

O meme Beauvoiriano foi severamente adulterado, e é por isso que o homem Gen Y e Z não consegue entender minha descrição do passado muito bem. O que as sociologiquetes empoleiradas entendem hoje é que homens e mulheres são idênticos, mas como, ahem, o padrão de humano é a fêmea, tudo em que homens diferem de mulheres é defeito, algo a ser corrigido com reengenharia social. Não me pergunte como é que as sociologiquetes sabem que o padrão de humano é a fêmea se acreditam que humanos nascem sem natureza, e ser fêmea não é um padrão inato. Isso é um problema das sociologiquetes empoleiradas, não tenho nada a ver com isso, então não me meta nesse rolo. O que eu sei é que esse rolo está impregnado em todo o lugar na cultura hoje, então as pessoas acham normal pensar assim.

Isso não tem nada a ver com o mundo que mulheres da minha idade e mais velhas viveram. Todas elas são como a Fiona. Fiona dá risada de algumas coisas que o Shrek faz, gosta de algumas e não gosta de outras, mas no final do dia, Fiona olha para o Shrek e vê um ogro. Claro que o Shrek é meio ogro, mas o que é que a Fiona vai esperar que o Shrek faça a não ser ogrices? A ideia de que um ogro não vá ter tendência a ser meio ogro nem passa pela cabeça da Fiona. Também não está preocupada em saber de onde vieram as ogrices dele. O que ela sabe ao certo é que Shrek é ogro, então a tendência dela é de ser leniente com as coisas de ogro dele. Shrek, por sua vez, olha para a Fiona e também acha natural ela ter tendência a fazer Fionices. 

A adulteração do meme Beauvoiriano foi mais grave que isso, entretanto. Quando mulheres exibem as características associadas ao estereótipo masculino, como agressividade, competitividade e estoicismo, elas são elogiadas, mas quando homens fazem isso, eles são ogros tóxicos. Quando homens exibem as características associadas ao estereótipo feminino e resolvem ser reconhecidos por sua capacidade de ser cuidador dos filhos, por exemplo, não só não são elogiados, como ainda são menosprezados, embora mulheres continuem a ser elogiadas e reconhecidas por essas habilidades também. A única hora em que a masculinidade é reconhecida como fenômeno real e existente no mundo é quando homens pisam na bola. Quando Shrek faz merda, aí sim. Tinha que ser ogro mesmo. Esse é o famoso jogo do cara o Shrek perde, coroa a Fiona ganha. O ogro está amarrado, totalmente puto, e quando resolve reclamar que ele não pode mais fazer coisas de ogro leva cascudo. 

Era de se esperar, nesse quadro, que ao menos as Fionas estivessem bem, mas não é esse o caso. Estamos na cultura das Fionas academizadas, siliconadas, liposaspiradas, lipoesculpidas e botoxizadas. Mulheres nunca foram tão neuróticas com ideais de beleza quanto são hoje, e nunca tiveram tantos recursos para se embelezar, mas é justamente nesse ambiente que vemos mulheres argumentando que elogios à sua beleza são coisa de ogro, um desrespeito a todas as Fionas. Não fás centido. Isso é neurose coletiva.

Nunca vi tantas mulheres arrotando que são independentes e não precisam de homem pra nada, mas são justamente as independentinhas, usufrutárias do regime de liberdade sexual plena padrão app tele-rola dos tempos atuais, as que mais reclamam neuroticamente de falta de liberdade sexual. A Fiona balzaquiana empoleirada média hoje é culta, solteira e profissionalmente bem sucedida, mas está pânico com a ideia de que não vai conseguir agarrar seu Wolverine rosnador princeso, bem-sucedido profissionalmente, fiel, submisso, corno e feliz para sempre. Também não fás centido. 

Aliás, que papo é esse de Wolverine? E o Shrek? Levando cascudo, é claro. Esse ogro é muito ogro. Temos que colocar o Shrek em um curso de desconstrução da sua ogricidade. Ele não vai virar Wolverine lá, mas pelo menos aprende a calar a boca. Beauvoir nessa hora deve estar dando voltinhas no túmulo e se perguntado que merda é essa que as Fionas estão fumando. Ela passou a message in a bottle com instruções de empoderamento detalhadas, mas as Fionas fumaram o bilhete, e ninguém sabe onde enfiaram a garrafa.

Alô, Shrek? Tá tudo bem aí?

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