Não sou Feminista

Simone de Beauvoir relutou em aceitar o rótulo de feminista, coisa que só foi fazer publicamente em 1972, possivelmente movida por razões mais políticas do que ideológicas. Sua tese sobre a emancipação feminina estava fortemente conectada à ideia da aniquilação da maternidade, um conceito ainda não incorporado ao repertório ideológico feminista na sua época. O sufrágio feminino talvez tenha sido uma das coisas que causou sua relutância, já que é sabido que ela considerava a narrativa feminista sobre o voto um imbróglio de marketing. Associar-se a esse tipo de ilusão coletiva talvez não fosse o que a filósofa tinha em mente.


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Ao estudar a história do voto não filtrada pela narrativa feminista, talvez mais importante do que observar o quanto ela foi distorcida é pensar nas razões que motivaram essa distorção. Nada do que foi teorizado sobre a realidade de gênero durante a segunda onda feminista faz muito sentido quando visualizamos o que de fato ocorreu na primeira, a das sufragistas, coisa que podemos atestar no panfleto de Josephine Jewell Dodge*, líder da National Association Opposed to Woman Sufrrage (EUA), onde razões para opor-se ao voto feminino são listadas.

Tanto nos EUA quanto no Reino Unido existiram ligas anti-sufrágio lideradas por mulheres, um fato que é convenientemente omitido por feministas. A mera existência dessas ligas é a prova de que a ideia de que voto feminino foi um embate entre sufragistas valentes e homens machistas malvados é uma fraude histórica. Havia opositores e apoiadores entre homens e mulheres, portanto retratar o voto feminino como um embate entre gêneros é mais do que uma romantização, é uma mentira. Sem ela, entretanto, fica evidentemente prejudicado o suporte à tese da luta de classes fabricada na segunda onda. Aliás, nada no panfleto é conveniente ao discurso da segunda onda, a que elaborou os pilares teóricos centrais do que se entende por feminismo hoje.

No panfleto, Josephine frisa que o voto era demanda de uma minoria de mulheres, um fato nada conveniente para o discurso feminista. O mantra de que o feminismo deu voz às mulheres também é pulverizado. Mulheres rotineiramente se envolviam com ativismos diversos, e estar fora da política era considerado bônus, uma forma de resguardar o status e a função da mulher na sociedade. Na época, mulheres, inclusive sufragistas, estavam absolutamente confortáveis com seus papéis de gênero. A existência de um locus social feminino onde mulheres se enxergavam como agentes importantes e influentes é a antítese do que a segunda onda descreveu sobre a realidade da mulher no passado. A narrativa da mulher como grupo sem voz, explorado, escravizado, perseguido e espoliado de direitos pela classe masculina dificilmente teria tração no período das sufragistas, entretanto, tal coisa virou meme na segunda onda. Já se sabia que essa descrição do passado era capciosa no instante do seu nascimento, mas memes são memes. Veracidade não é condição para sua viralização, algo trivial de entender hoje na era digital.

Compreender exatamente o mecanismo e as condições que propiciaram o surgimento e viralização desse meme é algo que tento fazer ainda hoje. Esse é o ponto de inflexão na cultura onde mulheres deixaram de se entender como peças relevantes de uma engrenagem e passaram a se visualizar como vítimas do sistema. Observar esse bem-sucedido esforço de reescrever o passado me deixa a divagar sobre o que mais na história da humanidade estaria desfigurado e nos é vendido como retrato fiel da realidade. 

Neo realmente saiu da Matrix? Seria a pílula vermelha parte de uma realidade que ele escolheu ao tomar uma pílula azul? O que realmente tem dentro das salsichas? Melhor nem saber.


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